segunda-feira, 16 de julho de 2012

Os invisíveis

Cada vez que vestia a roupa de gari, o universitário Fernando Braga da Costa se sentia como um estrangeiro em sua própria escola. Viu que, quando estamos uniformizados, ninguém enxerga o ser humano: só a função 




Quando estudava psicologia na Universidade de São Paulo, Fernando Braga da Costa recebeu a incumbência de escolher uma profissão menos valorizada pela sociedade e exercê-la por um dia.

A ideia era compreender que nem mesmo os psicólogos estão livres dos preconceitos e valores das classes mais privilegiadas. Fernando escolheu fazer seu trabalho de campo em meio aos garis da Cidade Universitária e, surpreso, descobriu que o ser humano é o único animal que finge não ver seu semelhante.

Isso ficou claro quando, vestido com calça, camisa e boné vermelhos, precisou entrar no prédio do Instituto de Psicologia, no intervalo das aulas, e as pessoas desviavam dele como se desvia de um obstáculo, de um objeto. Nenhum cumprimento por parte de seus professores ou de seus colegas: ele era um uniforme que perambulava, tinha ficado invisível. E começou a se questionar: será que isso era uma espécie de cegueira social? Será que era de propósito? 

Ninguém via a pessoa, via o varredor. Descobriu que, aos poucos, as pessoas registram apenas os lugares varridos, limpos como que por natureza. "Mas as profissões não nascem naturalmente, isso é uma imposição de ordem social. E, se o trabalho é, em essência, imbecil, os trabalhadores não são imbecis, longe disso!", diz Fernando, com conhecimento de causa. Afinal, a pesquisa acontecia, no mínimo, uma vez por semana: e lá ia o estudante bater o ponto, retirar o barro das guias, cortar mato, subir na caçamba das caminhonetes em meio às ferramentas e ao lixo, varrer com vassouras inadequadas ao esforço, trabalhar vigiado, debaixo de sol forte, sem direito a conversa fiada. 

E, se em 1993 era apenas o trabalho de uma disciplina de graduação, o projeto transformou-se em iniciação científica, depois em mestrado e, finalmente, em doutorado, 15 anos depois. A tese defendida em 2008 traz os retratos biográficos de dois garis, Nilce e Moisés, e deu origem ao livro Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social (Editora Globo). Fernando percebeu que era preciso estar perto, dar tempo para que uma conversa franca pudesse surgir. Só assim poderia entender a angústia que um olhar - ou uma palavra - podem causar; só assim poderia entender o peso da humilhação no corpo da faxineira que, de tanto ser tratada como invisível, acaba comportando-se como alguém invisível, como alguém cuja presença não altera, não influencia, não comunica. "E não há nada mais indigno que ter sua existência colocada em questão", ele diz. "Nossa subjetividade nasce em contato com os outros homens." 

A pesquisa de Fernando voltou à luz no fim de 2011, nas redes sociais: no Facebook, desde dezembro, mais de 21 mil pessoas compartilharam um post que reproduzia uma reportagem antiga, que contava a história. O ator Diego Rodda foi uma dessas pessoas: "Compartilhei por pensar que as redes sociais podem e devem desempenhar um papel bem mais importante que unir pessoas e disseminar desgraças". A iniciativa coincidiu com a divulgação recente de uma pesquisa encomendada ao Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que traçou um perfil dos 100 mil trabalhadores responsáveis pela limpeza e conservação de São Paulo. Os resultados apontaram que um quarto dos 1851 profissionais entrevistados já sofreu algum tipo de discriminação. 

Em sânscrito, karma significa ação, e toda ação - ou mesmo sua ausência - gera um impacto na realidade. "Saber disso faz com que tomemos decisões de uma forma não automática", explica Luciana Brandão, fundadora do estúdio Ioga na Cidade, em São Paulo, e urbanista formada na faculdade de arquitetura da mesma universidade na qual Fernando se formou. Diante de outro post muito compartilhado, recentemente, cuja imagem de uma lousa trazia os dizeres "não adianta praticar ioga e não cumprimentar o porteiro", Luciana pergunta: "Os textos sagrados da ioga falam que a ignorância é a fonte do sofrimento, mas qual ignorância? Ignorar o fato de que somos todos unidos em essência, somos todos Um.


Lívia Lisboa
Revista Vida Simples

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